quinta-feira, 15 de março de 2012

MONOLOGO DA RABIDANTE

Sou jovem, dizes e afirmas
Que quase criança ainda
Na escola devia estar
E tens razão estudo e trabalho
E na rua revendo a minha pobreza
Não sabes, mas tenho o meu Douglas
Na rua deve estar agora
Ou na casa de algum caridoso visinho
Por favor não leve o meu cesto
Vender não é crime,
Crime é roubar
É para meu Douglas comer
Estou a chorar
Não vês as lágrimas
Que meu rosto molha
E escorre rumo ao mar
Formando rio
Jamais existente
Nesta Praia de pouca cheia?

Ganhas teu pão sei
E te pedem para ordenar a cidade
sei que tens razão
Eu devia pagar imposto
E no mercado vender
Mas como vender
se com dinheiro o imposto pagar?

Sozinha vivo eu e tenho um filho
Já nos conhecemos...
Várias vezes de ti fugi
E várias vezes por ti... Esquecida
Podes Esquecer de mim
Mas única e última vez?
Juro e prometo vou mudar
Vou deixar que está enorme
Rua chamada de Pedonal
Sirva apenas para passear
Vou estudar e vender sempre
Até encontrar outro modo de vida
Venderei no Mercado da Praia...!
Mas dás-me o meu Cesto?
É comida do Douglas, meu pequeno filho!

João Furtado
Praia, 15 de Março de 2012

quarta-feira, 14 de março de 2012

ALMA DE POETA

A Alguem um dia me disse simplesmente
L Libertar a Alma e deixa-la falar livremente
M Mais não é que ser Poeta perfeitamente
A A Alma de Poeta é livre viver alegremente!

D Digo-te que não entendeu na altura a minha mente
E E julguei estar a ouvir um completo demente!

P Provei anos depois e gostei desta cruel semente...
O Outra coisa não estou senão perdido loucamente
E E sem amarra escrevo e não importo da corrente
T Tanto seja para o mundo como para um parente
A Amor e sofrimento... Alma de Poeta... Cegamente!

João Furtado
Praia, 14 de Março de 2012

SER POETA

S Sem querer e do nada surge o poema
E E o simples homem é chamado poeta
R Reconhecido porque a poesia é o tema!

P Porque vive dentro dele a Musa
O Obrigada a respirar e viver
E Ele transforma em arte poética
T Todo o sofrimento de ver sofrer
A A humana criatura e a Criada Natureza!

João Furtado
Praia, 14 de Março de 2012

O POBRE GUSTAVO

O Pobre Gustavo

Hoje estou muito triste e meditativo
E recordo-me de pequeno, era pouco ativo
Na Ilha do Príncipe, sem grande motivo
Para reparar no trabalho escravo
Que trabalhava o pobre Gustavo
Que sempre andava sem um centavo
Humilhado, não sentiu o agravo…
Velho, pobre e há muito avô
Regressou a Terra no cargueiro “Dom Ivo”
E na bagagem… Um ar de falso parvo!

João Furtado

Praia, 14 de Março de 2012

terça-feira, 13 de março de 2012

DIMA PRIMA RIMA

A bela e negra e esbelta Dima
É por parte materna minha prima
Disse-me que fez um lindo poema
E que bem usou a propagada rima
Elogiada subiu montanha a cima
Do alto julgou ser Deusa Altíssima
E voou, pena minha… Caiu na lama…
Mas a prima Dima continua prima na rima
Pois pouco depois renasceu a Musa Dima!

João Furtado
Praia, 13 de Março de 2012

domingo, 11 de março de 2012

GALA DE MUSICA BANA

G Grande Bana, você merece
A A grande homenagem atribuída
L Linda se tornou a Gala por ti
A Aniversariante num dia tão especial !

D De repente a Gala se tornou emoção
E E as lagrimas correram nas faces dos humanos....

M Muito por causa de ti, Monstro da Musica
U Um homem cinquentenário na arte e carreira
S Sempre forte na voz fibrosa, masculina e
I Impar no mundo e na terra Cabo-Verdiana
C Criança de São Vicente e homem do mundo
A As velas, oitentas, apagadas te tragam saúde, Bana!


Praia, 11 de Março de 2012

João Furtado

quinta-feira, 8 de março de 2012

LEONOR AFRICANA

Se descalça ia a Leonor
De Camões grande poeta
A minha também vai
Não só por não ter sapato
Mais também por nem pés ter
Uma bomba colocada
Por um nacionalista
Uma bomba colocada
Por um terrorista
Uma bomba colocada
Por um pacifista
Uma bomba colocada
Por um anarquista
Levou o pé da minha Leonor


Se Formosa e não segura ia a Leonor
De Camões que poeta foi e é
A minha Leonor nem formosa vai
E muito menos segura
Pois de farrapos vai vestida
E do lixo perfume buscou
Anda de montes e vales
De muletas se apoia
Buscando do nada o alimento
Para seu sustento e dos seus
Minha Leonor não vai formosa
Minha Leonor nunca conheceu segurança!

Se levava a cabeça o Pote
A Leonor de Camões de Portugal
Ai do mundo, minha Leonor
Leva dentro da cabeça o desespero
Da fome que lhe deu a natureza
Da fome que lhe deu a guerra
Da fome que lhe deu a miséria
Ainda leva a minha Leonor
Que tudo pode levar
Na barriga um filho sem pai
E no colo outro filho
Que pai também não tem
Pai que morreu de fome
Pai que fugiu de fome
Pai que de luxuria fugiu
Pai que morreu de bomba
Pai que morreu de guerra
De guerra que não é de Leonor
Nem dos filhos de Leonor
Guerra de ninguém.

Se descalça ia a Leonor
De Camões grande poeta
A minha também vai
Não só por não ter sapato
Mais também por nem pés ter!


Joao Furtado

Faz parte do livro “A TERRA E A GUERRA PELA PAZ – VOL I” a venda na Biblioteca Nacional da Praia – Cabo Verde!